quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Perdas e Danos
Foi o que me disseram.
Agora só uso óculos escuros
E nem dou tantos sorrisos.
Se não estiver a contento,
então consegui.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Manifesto Pessoal do Deserdo
Guarda contigo tuas dívidas, defeitos e vícios.
Não admito carregar nem dar mais vida a atributos
desprezíveis.
Convoco todas as minhas entranhas, massas e líquidos.
Do fundo do meu corpo, abominemos essa continuidade.
Não podemos e não seremos parte dessa espiral.
Viva as linhas paralelas!
Pai, quero que tu me deserde.
Esqueça todos os dramas e solilóquios do almoço.
Você está sempre bêbado.
Pai, quero que rasgues a certidão de culpa por teres me posto no mundo.
A partir daqui, assumo eu.
Pai, quero que diante de todos: meus rins, minhas amigdalas, meus intestinos, quero que diante de todos você se ajoelhe e ateste a carta de insanidade que me habita.
Pai, eu não estou louco.
Pai, eu não estou puto.
Pai, quero não me lembrar das suas dívidas.
Quero não tê-las.
Afinal, meu nome ficou sujo foi com as tuas pegadas.
E ouso dizer, Pai, que após me libertar desse sinal na carne, eu revelarei na tua cara todas as verdades que tua mente mesquinha não aceita:
Eu uso brinco, pa-pai.
Meu cabelo é grande, pa-pai.
Eu faço arte, pa-pai.
EU DEI O MEU CU, pa-pai-zi-nho!
Agora, quero te dizer que me deserde.
Não faço questão de carregar comigo tua pele inchada,
tuas juntas fedidas, teus ossos podres.
Não faço questão. Pelo contrário.
Deserde-me pai.
Deserde-me.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
No escuro
O espírito da Terra foi paciente até agora com você, mas a Mãe não tolera abusos. E você está começando a abusar...
Enquanto você me olha com esses olhos cinzentos, todos lá fora o estão aguardando. Não adianta culpar os fardos de dor que você quis carregar. Assim é a responsabilidade dos atos. Cada flor que você planta terá sua responsabilidade até que você dê a ela a sua devida liberdade.
Enquanto isso, os lobos brigam...
Da mesma cobra que lhe enxerta o veneno, você extrai o soro que lhe salvará.
Não durma sem antes ir lá fora dizer a cada um o que deve ser feito.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Como dois...
Tudo era perfeito entre eles. Ele tinha 16, ela um pouco menos. Estudavam juntos e eram vizinhos, mas ele não visitava a casa dela, porque ela não queria que os pais sequer desconfiassem. E ela não visitava a casa dele por vergonha mesmo. Tudo era perfeito entre eles...
Na escola, sentavam juntos. Na primeira fila, por causa dela, que queria estudar, ou no fundo, por causa dela, que queria namorar escondido. Para ele, onde estivessem valia. Afinal, na hora de namorar ele era todo hormônios e na hora de estudar, bem, aquilo era uma escola, oras. Na hora do intervalo ele costumava sair para jogar qualquer esporte na quadra ou conversar as besteiras mais gostosas do mundo com amigos, mas isso se foi. Agora ele ia para o fundo da sala comer salgadinhos com ela e conversar coisas que ele nem lembraria anos mais tarde...
Quando o intervalo acabasse, aí sim eles iriam ao banheiro ou beberiam água, para voltarem juntos, depois do primeiro a sair, esperar pelo segundo. Quando largavam, andavam até a praia. Era perto. E lá, ficavam até a tarde virar noite, descobrindo inocentemente a arte sublime que os corpos desenham nos lençóis de areia ou de mar, conforme a ousadia. Ela ainda relutava. Ele esperava. Orgulhava-se disso: ser compreensivo. Ele queria mesmo era arrancar aquelas roupas e passar a noite ali, descobrindo-a e metendo-se entre arbustos e pernas. Mas esperava pacientemente a vida inteira (?) se ela precisasse. Mas não, ela não precisava de tanto, precisava apenas se sentir segura com ele e depois disso precisava receber a permissão de um médico e depois disso precisava casar e depois disso precisava...
Já era hora de ir para casa, ela tinha que dar notícias, e ele iria encontrar os pratos do almoço esperando serem lavados além de uma mãe ameaçando-lhe de ter um enfarto do miocárdio e que isso não se repita, está me ouvindo? ...Não, ele não está lhe ouvindo, ele está pensando nela e ela está pensando nele, mas nem sequer pode telefoná-lo, ou toda sua vergonha seria exposta. Mas, tudo bem, ela o veria no outro dia bem cedo, antes da aula, ela também o convencera a chegar mais cedo assim, conversariam e se beijariam sem que todos estivessem por lá, sequer olhando.
Um dia ela ensinou um acalanto para ele. Outro dia ela teve sono e durante o intervalo dormiu no colo dele enquanto ele cantava aquele acalanto. Outra vez ele trouxe para lanchar, sem saber, um salgadinho que ela adorava. E um dia ele teve frio e fome, mas preferiu cantar acalanto enquanto ela dormia...
Um ano depois, quando brigavam, ela o chamou de egoísta.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
só um só
- Quem dera... quem dera - disse o celular com um triste olhar perdido no horizonte.